(Re)significando o nosso trabalho – Parte II: Por um capitalismo mais consciente e humano

trabalho I.jpg

Ao mesmo tempo que vemos muitos modelos ruindo e os consensos que dominaram o “mainstream” econômico e político nas últimas décadas perdendo o fôlego, vemos algo novo no ar. Em meio a uma crise sem precedentes – ou melhor, a soma de muitas crises em diversas partes do mundo – é difícil enxergar padrões claros de mudança para melhor. Mas, para os olhos mais atentos, dispostos a abrir mão de antigas formas de ver o mundo, os sinais do novo aparecem brotando de diversas formas e sob diversos nomes. Não se trata de um só modelo e sim uma cacofonia de tendências movidas pela exaustão e pelo quase sufocar de uma massa de pessoas com aquilo que estamos gerando coletivamente para nós mesmos, para a sociedade e para o planeta.
Onde uma porta se fecha, muitas outras se abrem.

Capitalismo consciente, negócios de impacto, empresas B, vidas simples, criação de valor compartilhado, cocriação e colaboração, economia compartilhada. São tantos movimentos e ao mesmo tempo um só.
 

O espírito do nosso tempo

Vivemos em uma época de grandes mudanças, assim como foram muitos outros períodos antes deste. Mas de alguma forma o ritmo das mudanças acelerou. Vivemos em uma época de enormes desafios coletivos. E eles estão ficando maiores e mais complexos. O sistema de representação política está travando em todo o mundo democrático. Os representantes por nós escolhidos, seja no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos ou em outros cantos do planeta, não tem a menor ideia do caminho a trilhar. As nossas instituições estão tomadas por grupos de interesse e corporativismo e grande parte da chamada iniciativa privada continua se perdendo na ilusão de que bastam menos amarras, mais produtividade e mais crescimento para solucionar todas as mazelas do mundo. Relações de trabalho mais flexíveis e menos impostos. Ou será que precisamos de mais governo e mais centralização?

Essa discussão cria uma cortina de fumaça sobre nossos reais problemas coletivos, a cada dia mais urgentes. Estamos exaurindo os recursos naturais e extinguindo espécies em um ritmo sem precedentes. Estamos alterando a nossa atmosfera e o nosso clima e derrubando as nossas últimas florestas. Uma massa assustadoramente grande de pessoas continua à margem do nosso sistema social e econômico, sem perspectivas ou acesso a oportunidades. Você já passou algum tempo conhecendo a periferia de uma metrópole como São Paulo? Já tentou entender a realidade e a história das pessoas que vivem nesse contexto?

Se você fez essa jornada, deve ter percebido que os tecidos sociais muitas vezes são rasgados, que os problemas que parecem tão simples nos jornais de repente se tornam extremamente complexos e que boa parte das certezas se tornam dúvidas.

E para que estamos gerando tudo isso? Para trabalhar até as 9 da noite todos os dias, passar horas no trânsito, em meio a poluição, e nos escondermos atrás de muros e cercas eletrificadas por medo da violência? Em carreiras corporativas passamos os nossos dias buscando mais market share, mais lucro, mais EBITDA, mais crescimento, sempre mais. Ou estamos buscando um cargo maior, mais bônus e o melhor carro do ano?

Ao mesmo tempo que temos que aceitar que o ser humano nunca deixará de ter o seu lado egoísta, há urgência em admitir que na história recente, ao menos nas culturas ocidentais e ocidentalizadas, temos feito um esforço consequente de enterrar o nosso lado altruísta e nossa orientação coletiva. Fazemos isso através de uma estrutura de incentivos quase exclusivamente voltada para o bem-estar pessoal e o individualismo. Se algumas utopias do passado falharam em sua visão ingênua, idealizando um possível ser humano desprovido de egoísmo e um sistema de relações humanas exclusivamente pautadas pelo bem coletivo, o nosso modelo atual está se afogando no individualismo exacerbado e na busca cega por crescimento a qualquer custo. Mas como crescer indefinidamente em um planeta finito? Alguma coisa está fora de lugar aqui.

E os desafios não irão ficar menores. Se em 1800 éramos 1 bilhão de pessoas na Terra, em 1950 havíamos mais que dobrado, éramos 2,5 bilhões. No ano 2000 chegamos a 6 bilhões de habitantes. Hoje já somos mais de 7 bilhões e a população do planeta continua crescendo. O mundo está ficando pequeno e os problemas estão cada vez mais complexos, interconectados e interdependentes. Para onde vamos? Tomando emprestada a pergunta do professor Otto Scharmer do MIT, “Por que estamos coletivamente gerando resultados que ninguém quer?”

Esse é o nosso Zeitgeist –  o espírito do nosso tempo. Em certa medida somos uma geração cansada com o status quo, desiludida com as promessas e sonhos que nos foram vendidos no passado recente, e perdida em nossas contradições. Somos uma geração inquieta, munida de muitas ferramentas e oportunidades, mas que carrega uma enorme responsabilidade. Como disse Nelson Mandela, em seu épico discurso em 2005 no Trafalgar Square, África do Sul: "Por vezes, cabe a uma geração ser grande. Vocês podem ser essa grande geração."
 

Concertando a caixa

Se o tamanho e complexidade dos problemas muitas vezes assusta e quase paralisa, as possibilidades criadas por uma rede global de informação e uma aldeia mundi com distâncias cada vez menos relevantes são infinitas. Temos ferramentas como nenhuma geração antes da nossa. Somos uma rede fluida, conectada e cada vez mais consciente, e temos a nossa disposição um volume monumental de informações.

Se todos precisávamos pensar fora da caixa, talvez era a caixa que precisava ser concertada. – Malcolm Gladwell

Se as ferramentas para mudança estão aí e a crise (ainda) não é de recursos, o que está bloqueando uma transição para um sistema mais equilibrado, humano e inclusivo? De fato, a crise atual em sua essência é uma crise de valores e de visão de mundo. O que nos bloqueia é a nossa cegueira coletiva causada por jornadas individualistas. Não que isso seja exclusivamente uma opção individual de cada um. O modelo mental que nos é empurrado a cada dia nos vende a ideia de que precisamos nos destacar pelo êxito financeiro. Se tenho um cargo melhor e mais dinheiro, eu sou mais do que os outros. Eu tenho que consumir e possuir toda uma gama de produtos para ser aceito como normal. Por outro lado, as pressões econômicas para pagar as contas, pagar o aluguel e a escola dos filhos, faz o resto do serviço de nos colocar no piloto automático. A disfunção não é só individual, é coletiva e sistêmica.

Para concertar “a caixa”, precisamos necessariamente questionar os nossos valores e visão de mundo. Qual é o meu papel no mundo? Qual é o papel das nossas instituições, governos e empresas? Para que estamos criando e gerindo empresas? Somente para ganhar dinheiro? Dinheiro é ferramenta, não é fim. Mas não é isso que a nossa psique coletiva prega. Está na hora de revisarmos os nossos valores e (re)significarmos o nosso trabalho. Está na hora de nos reapropriarmos dos nossos governos e reinventarmos as nossas empresas. Em muitas partes esse movimento já começa a acontecer.
 

A revolução do novo

Um dos sinais mais fortes de mudança vem de uma série de movimentos que buscam resgatar o propósito e redefinir o papel das empresas.

No âmbito corporativo, vemos gurus da estratégia empresarial como Michael Porter, de Harvard, pregarem que as empresas para se manterem competitivas no futuro deverão focar na Criação de Valor Compartilhado, gerando resultado financeiro e social ou ambiental simultaneamente.

Temos também a filosofia do Capitalismo Consciente que defende que é possível que as empresas contribuam para o bem-estar da sociedade ao mesmo tempo em que geram lucro para seus acionistas. Empresas que aderem a essa filosofia são estruturadas em 4 pilares:

– Liderança consciente;
– Orientação para um propósito maior;
– Orientação para os diversos stakeholders;
– Cultura consciente.

Dentro dessa nova consciência empresarial, surgiu também a necessidade de avaliar em que medida uma determinada empresa está comprometida com o bem coletivo, e daí emergiu um sistema de mensuração de impacto dos negócios chamado Empresas B.

Professor Muhammad Yunus, criador do conceito de Negócios Sociais. Uma das facetas mais interessantes dessa nova onda é o chamado setor de Negócios de Impacto. A ideia não é nova. Na década de 1970 Muhammad Yunus, empreendedor, economista e Nobel da Paz, fundou o Grammeen Bank e inventou o conceito de microcrédito ao mesmo tempo que estruturava uma nova lógica de negócios, que mais tarde ele viria a batizar de Negócios Sociais. Na definição de Yunus, Negócios Sociais são empresas que têm como única missão solucionar um problema social, são autossustentáveis financeiramente e não distribuem dividendos.
O conceito é antigo, mas o movimento vem ganhando relevância e tem se difundido de forma muito rápida somente na última década.

A definição mais comumente aceita no brasil atualmente é Negócios de Impacto, que são empreendimentos que têm a missão explícita de gerar impacto socioambiental ao mesmo tempo em que geram resultado financeiro positivo e de forma sustentável.

Atualmente existem milhares de empreendimentos, sobretudo startups, atuando nessa lógica. Existem também dezenas de fundos de investimento de impacto, aceleradoras e organizações de apoio, além de centros de estudos nas principais universidades do país focados neste tipo de organização. É um movimento efervescente e crescente que se soma a muitos outros na busca de um mundo melhor.
 

MUITAS PORTAS SE ABREM

Vivemos em uma época exponencial e de grandes mudanças. Uma época de enormes desafios coletivos. Se os nossos problemas são gigantescos, o novo está aí por toda parte. Cabe a nós sairmos do piloto automático e assumirmos a responsabilidade que herdamos. Não cabe a nós decidirmos em que época vivemos, mas cabe a nós fazermos o melhor com o tempo que nos foi dado.

Onde uma porta se fecha, muitas outras se abrem. Basta começarmos a escolher as portas de forma mais consciente e humana.

Esse é o segundo artigo de uma série que busca mostrar caminhos para alternativas de trabalho e de vida com mais significado e equilíbrio.


 

Por: Andreas Ufer
Marcia Kolos